Em uma sala de tribunal federal em Oakland, Califórnia, dois dos homens mais ricos do mundo se enfrentam em um processo que vai além de uma disputa bilionária: está em julgamento a alma da inteligência artificial — quem a controla, para quem ela serve e qual o preço da traição de uma missão.
1. Contexto: Como Tudo Começou
Em 2015, Elon Musk e Sam Altman cofundaram a OpenAI com uma premissa radical: criar uma organização sem fins lucrativos dedicada a desenvolver inteligência artificial de forma segura e para o benefício da humanidade. Musk contribuiu com mais de US$ 44 milhões em financiamento inicial e era amplamente visto como a força motriz por trás da visão altruísta da empresa.
A relação começou a se deteriorar quando Musk pressionou por controle unilateral da organização — segundo testemunhos no tribunal, ele queria que as pessoas soubessem que “ele estava no comando”. Altman e Brockman teriam resistido. Em 2018, Musk saiu do conselho.
O que se seguiu foi uma transformação que Musk chama de traição: a OpenAI migrou progressivamente de uma estrutura sem fins lucrativos para um modelo híbrido com fins lucrativos, recebeu bilhões da Microsoft, atingiu uma avaliação de US$ 852 bilhões e prepara um IPO milionário — tudo isso, segundo Musk, à custa da missão original.
“Perfídia e decepção de proporções shakespearianas.” — Marc Toberoff, advogado de Musk, nos argumentos de abertura do julgamento.
2. O Julgamento: Números e Estrutura
O processo foi ajuizado em 2024 e chegou ao tribunal federal em Oakland no final de abril de 2026. Os réus são Sam Altman (CEO), Greg Brockman (presidente) e, por extensão, a própria OpenAI e a Microsoft.
Os principais pedidos de Musk incluem:
- Devolução de até US$ 134 bilhões em “ganhos ilícitos” ao braço sem fins lucrativos da OpenAI
- Remoção de Altman e Brockman de seus cargos
- Desfazimento da reestruturação para fins lucrativos realizada em 2025
O júri é composto por nove pessoas, mas seu veredicto é consultivo — a decisão final cabe à juíza Yvonne Gonzalez Rogers. Após mais de dez dias de testemunhos e argumentos finais em 15 de maio de 2026, o júri entrou em deliberação na semana seguinte.
3. As Revelações Mais Impactantes do Tribunal
3.1. Mira Murati: “Sam criava o caos”
A ex-diretora de tecnologia da OpenAI, Mira Murati — que chegou a servir brevemente como CEO interina após a demissão temporária de Altman em novembro de 2023 — prestou depoimento em vídeo que sacudiu o julgamento.
Sob juramento, Murati descreveu Altman como alguém que “dizia uma coisa para uma pessoa e o oposto para outra” e que estava “criando caos” na empresa. Ela também afirmou que Altman a induziu a erro ao dizer que os advogados da empresa haviam aprovado o lançamento de um novo modelo sem a revisão do conselho de segurança — o que, segundo ela, não era verdade.
Quando perguntada diretamente se Altman era honesto com ela, Murati fez uma longa pausa antes de responder: “Nem sempre.” E confirmou que ele a havia “enfraquecido” em seu papel de CTO e que “colocava executivos uns contra os outros”.
Notavelmente, Murati disse que mesmo assim havia pressionado o conselho para manter Altman como CEO durante a crise de 2023 — refletindo o dilema operacional que a empresa enfrentava.
3.2. Ilya Sutskever e o “Padrão Consistente de Mentiras”
O cofundador da OpenAI, Ilya Sutskever, testemunhou que escreveu um memorando ao conselho em 2023 descrevendo Altman como tendo um “padrão consistente de mentiras” que causou perda de confiança e produtividade. Confirmou que havia dito ao conselho que Altman “colocava seus executivos uns contra os outros”.
3.3. O Diário de Greg Brockman
Os advogados de Musk usaram as entradas do diário pessoal de Brockman como evidência central, argumentando que elas demonstram que Brockman e Altman enganaram Musk sobre a manutenção da estrutura sem fins lucrativos. Brockman, no entanto, afirmou no tribunal que seu objetivo número um sempre foi a missão da OpenAI, e que foi Musk quem buscou controle unilateral — dizendo que “as pessoas precisavam saber que ele estava no comando”.
3.4. Os Conflitos de Interesse de Altman
No banco das testemunhas, Altman confirmou que possui aproximadamente um terço da Helion Energy, startup de energia de fusão avaliada em cerca de US$ 1,65 bilhão. No total, ele detém mais de US$ 2 bilhões em empresas que fazem negócios com a OpenAI — incluindo um acordo de dados de US$ 200 milhões com o Reddit, enquanto detinha participação pessoal significativa na rede social.
Esses conflitos geraram uma investigação formal do Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA, que exigiu que Altman testificasse até 22 de maio de 2026. Seis procuradores-gerais republicanos também pediram à SEC que examine a governança da OpenAI antes de qualquer IPO.
3.5. Satya Nadella: “Amateur City”
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, testemunhou que o conselho da OpenAI nunca lhe deu uma razão clara para demitir Altman em 2023, chamando o episódio de “amateur city, do meu ponto de vista”.
3.6. A Tentativa de Acordo — e o E-mail Ameaçador
Nos bastidores, Musk tentou um acordo com Brockman na semana anterior ao início do julgamento. Quando Brockman sugeriu que ambos os lados desistissem de suas respectivas ações, Musk respondeu por e-mail: “Até o final desta semana, você e Sam serão os homens mais odiados dos Estados Unidos. Se insistir, assim será.” O e-mail foi tornado público pelos advogados da OpenAI.
3.7. A Confissão de Musk sobre o Grok
Um momento revelador: Musk admitiu em tribunal que seu modelo de IA Grok, da xAI, havia sido treinado parcialmente por “destilação” dos modelos GPT da OpenAI — a empresa que ele mesmo está processando por práticas antiéticas.
4. O IPO da OpenAI: Bilhões em Jogo
Enquanto o julgamento acontece, a OpenAI se aproxima de um dos maiores IPOs da história. Os números atuais são vertiginosos:
- Avaliação atual: US$ 852 bilhões (pós captação de US$ 122 bilhões em março de 2026)
- Receita mensal: US$ 2 bilhões
- Usuários ativos semanais do ChatGPT: 900 milhões
- Prejuízo líquido em 2025: US$ 44 bilhões
- Investimento previsto em infraestrutura nos próximos 5 anos: US$ 1,15 trilhão
A CFO Sarah Friar já declarou que a empresa não estaria pronta para abrir capital em 2026. Analistas agora apontam para meados ou final de 2027 como cenário mais realista, especialmente diante das investigações congressionais e do processo em andamento. Se Musk vencer e a reestruturação for desfeita, o IPO pode ser inviabilizado completamente.
5. O Paradoxo Musk: Processando a OpenAI, Alimentando a Anthropic
Um dos desenvolvimentos mais surpreendentes do período do julgamento foi o anúncio de um acordo entre a SpaceX (agora rebatizada de SpaceXAI, após a fusão com a xAI de Musk) e a Anthropic.
Em 6 de maio de 2026 — durante a segunda semana do julgamento — Musk anunciou que a SpaceXAI alugaria toda a capacidade computacional do datacenter Colossus 1, em Memphis, Tennessee, para a Anthropic, criadora do Claude. O acordo inclui:
- Acesso a mais de 220.000 GPUs da Nvidia (H100, H200 e GB200)
- 300 megawatts de capacidade de processamento — equivalente ao fornecimento de energia de mais de 300.000 residências
- Interesse declarado em desenvolver conjuntamente gigawatts de capacidade computacional orbital no espaço
A Anthropic havia sofrido gargalos de infraestrutura severos, com restrições de uso para assinantes pagos durante horários de pico. Com o acordo, a empresa anunciou o dobro dos limites de uso do Claude Code, a remoção de caps de uso nos planos Pro e Max, e aumento significativo de capacidade para desenvolvedores via API.
Musk justificou o acordo dizendo que passou tempo com a liderança da Anthropic e ficou “impressionado”: “Ninguém acionou meu detector de maldade”, escreveu no X. O paradoxo é notável: ao mesmo tempo em que acusa a OpenAI de trair a missão de IA segura e benéfica, Musk financia a maior concorrente da empresa — que tem exatamente esse posicionamento como diferencial.
Para a SpaceXAI, o acordo representa uma injeção de caixa estratégica às vésperas de seu aguardado IPO, com avaliação-alvo de até US$ 1,75 trilhão e listagem prevista para junho de 2026.
6. O Cenário Competitivo da IA em 2026
O julgamento acontece em um contexto de corrida armamentista computacional sem precedentes. A Anthropic sozinha fechou os seguintes acordos de infraestrutura recentemente:
- Amazon: até 5 gigawatts, com 1 GW previsto para o final de 2026
- Google/Alphabet + Broadcom: 5 gigawatts para 2027
- Microsoft + Nvidia: US$ 30 bilhões em capacidade
- Fluidstack: US$ 50 bilhões em infraestrutura americana
- SpaceXAI (Colossus 1): 300 MW / 220.000 GPUs
A empresa está em conversas com investidores para uma nova rodada de captação que poderia valorá-la em US$ 900 bilhões — mais de 22 vezes sua avaliação de novembro de 2024.
Enquanto isso, o Grok da xAI enfrenta queda de popularidade: os downloads caíram de 20 milhões em janeiro para 8,3 milhões em abril de 2026, segundo a AppMagic, e apenas 0,17% dos usuários americanos de IA pagam pelo serviço, contra mais de 6% para o ChatGPT.
7. Lições de Governança: O Que Este Caso Ensina
Independentemente do resultado judicial, o caso Musk vs. OpenAI já produziu lições valiosas para qualquer organização que lida com tecnologia transformacional:
7.1. Missão sem governança é vulnerável
A OpenAI foi fundada com uma missão nobre, mas sem mecanismos robustos para garantir sua preservação. A ausência de estruturas formais de “charitable trust” ou de proteções estatutárias contra mudança de missão tornou a transformação possível — e agora é o cerne do litígio.
7.2. Conflitos de interesse destroem credibilidade
O CEO de uma empresa avaliada em quase US$ 1 trilhão detendo mais de US$ 2 bilhões em empresas que fazem negócios com ela é uma bomba-relógio reputacional. Políticas claras de divulgação e recusa não são burocracia — são proteção.
7.3. Depoimentos internos valem mais do que comunicados
As revelações mais devastadoras no julgamento não vieram de Musk, mas dos próprios ex-colaboradores de Altman: Murati, Sutskever, Toner, McCauley. A lealdade organizacional tem limites quando está sob juramento.
7.4. Parcerias estratégicas ignoram ideologia
O acordo SpaceXAI-Anthropic demonstra que, na corrida pela infraestrutura de IA, pragmatismo supera rivalidade. Musk pode processar a OpenAI com uma mão e financiar a Anthropic com a outra — e isso faz sentido de negócio.
7.5. A infraestrutura é o novo campo de batalha
Não são os modelos — são os datacenters, os megawatts e as GPUs que definirão os vencedores. Quem controla o compute, controla o futuro da IA.
8. O Que Esperar a Seguir
O júri entrou em deliberação na semana de 18 de maio de 2026. O veredicto é consultivo, e a juíza Gonzalez Rogers fará a decisão final de responsabilidade. A fase de danos (“remedies phase”) também está em andamento paralelamente.
Cenários possíveis:
- Musk perde: OpenAI mantém sua estrutura, IPO avança, mas os danos reputacionais para Altman permanecem. A governança da empresa provavelmente será reformulada sob pressão regulatória.
- Musk ganha parcialmente: Altman e/ou Brockman são removidos, acordo de danos com a organização sem fins lucrativos, IPO atrasado mas não inviabilizado.
- Musk ganha plenamente: A reestruturação é desfeita, o IPO é bloqueado, US$ 134 bilhões são devolvidos ao braço filantrópico. Cenário considerado improvável pela maioria dos analistas jurídicos.
Conclusão
O caso Musk vs. OpenAI é mais do que uma briga de bilionários. É um teste de estresse para as premissas fundamentais do desenvolvimento de IA: pode uma organização construída para servir a humanidade sobreviver ao contato com o capitalismo de escala trilionária? E quem tem legitimidade para responder a essa pergunta?
O que o julgamento já revelou — por meio dos depoimentos sob juramento de Murati, Sutskever, Toner e outros — é que as linhas entre missão e lucro, entre visão e vaidade, são muito mais tênues do que os comunicados corporativos sugerem.
Para investidores, reguladores e qualquer pessoa que usa ferramentas de IA no dia a dia, as próximas semanas em Oakland podem ser as mais importantes na curta e turbulenta história da inteligência artificial moderna.
Fontes consultadas: CNBC, Reuters, ABC7 News, Fortune, Technobezz, Futurism, Al Jazeera, Motley Fool, BanklessTimes, TradingKey, xAI Official Blog — todas verificadas em maio de 2026.